DICIONÁRIO DE BARBARISMOS DA LINGUAGEM CORRENTE
CORRETOR – Quem corrige alguma coisa designa-se habitualmente por corrector (leia-se currètor), já que, segundo a regra, o c antes do t serve para abrir a vogal anterior. Mas quem se ocupa de operações financeiras na Bolsa ou estabelecimentos congéneres tem de ser apelidado necessariamente de corretor, com e surdo, como o da última sílaba de leme. Estas foram igualmente as pronúncias alvitradas por João de Deus, a páginas 216 e 217 do seu “Dicionário Prosódico de Portugal e Brasil”, dado à estampa em 1895, e confirmadas em 2001 por José Pedro Machado, no “Grande Vocabulário da Língua Portuguesa”.
CORRIMÃO – Assim como o plural de mão se faz por acrescentamento de um s à forma do singular, assim também devemos proceder relativamente ao plural de corrimão. O nosso povo, porém, insiste em corrimões, de cuja existência não nos podemos abstrair, embora aconselhemos, preferentemente, o emprego do plural corrimãos, pois são as mãos, e não as mões, que deslisam habitualmente ao longo do mainel (barra, auxiliar das descidas e subidas, existente nas escadas), conforme opinião de Vasco Botelho de Amaral, expressa a páginas 999, 1º. volume, do seu “Grande Dicionário de Dificuldades e Subtilezas do Idioma Português”.
CORTE – Além de se referir a palácio ou habitação real, quando pronunciado côrte, o vocábulo registado em epígrafe também pode significar: curral, isto é, abrigo para cabras, porcos e ovelhas. Neste caso, porém, a pronúncia da vogal o não é fechada, mas sim aberta (córte), como se fosse rima perfeita de morte ou sorte. Deriva do acusativo latino cohorte-, que significava originariamente parte de legião, bando armado, magote, chusma, grupo de pessoas, multidão.
COSTELETA – Este vocábulo deve ser escrito e pronunciado costeleta, pois encontra-se relacionado com costela, e não costola, termo inexistente no linguajar português. Entende-se por costeleta, como é do conhecimento geral, excepto do dos infractores, a costela dos animais de consumo com alguma carne aderente. Esta palavra serve também para designar o desenho de suíças, ligeiramente arqueadas em forma de costela, que alguns homens usam para se tornarem mais notados pela sua excentricidade.
COUVE-LOMBARDA – Originária da província italiana da Lombardia, sempre ouvimos chamar, desde a nossa infância, couve-lombarda a uma crucífera, de folhas carnudas, muito saborosas, à qual se atribui agora (não sabemos porquê) apenas o nome de lombardo. Para reforço da nossa afirmação, convém mencionarmos aqui o seguinte: em 1965, na poesia “O Guarda-chuva”, inserta na página 179 do livro “Obra Poética de José Carlos Ary dos Santos”, ainda se pode ler a designação tradicional de couve-lombarda, por nós sempre defendida, mas agora infortunadamente votada ao ostracismo por alguns dos seus vendedores. Mais adiante, a páginas 26 da mesma obra, o inesquecível poeta fala outrossim de lombardas e repolhos, o que vem fortalecer ainda mais a nossa modesta asserção. Ora, até aqui, tal mudança designativa poderia considerar-se desculpável, porquanto as línguas, no decurso dos séculos, estão sujeitas a transformações de natureza gráfica ou semântica. Retemos ainda na memória, por exemplo, a palavra tratante, que se tomava outrora como sinónima de negociante, mas que presentemente contém o sentido pejorativo de: malandro, maroto, velhaco, patife, mariola. O que nos causou, porém, agora grande perplexidade foi o facto de termos surpreendido, num anúncio televisivo (sempre a mesma pecha), o nome de couve (palavra do género feminino) seguida erroneamente do adjectivo lombardo (no masculino). Então é assim, estropiadamente, sem se olhar à concordância, que se deve falar e escrever em português moderno? Afinal a que sexo é que pertence a couve: ao feminino ou ao masculino? Não será melhor que os redactores de mensagens comerciais, antes de as publicarem, as façam antecipadamente submeter a uma análise de pessoas competentes em matéria gramatical, a fim de se não sujeitarem posteriormente à mordacidade pública? |