DICIONÁRIO DE BARBARISMOS DA LINGUAGEM CORRENTE
COVEIRO – Já em 1895, na página 221 do seu “Dicionário Prosódico”, João de Deus mandava pronunciar este substantivo como cuveiro (enterrador de cadáveres), e não còveiro, prolação característica do linguajar interamnense, que respeitamos, embora continuemos a proferir surdamente a primeira vogal do vocábulo atrás mencionado, conforme sempre ouvimos articular em Lisboa, onde nascemos. Posteriormente, a páginas 182 do “Vocabulário Ortográfico e Ortoépico”, publicado em 1909, Aniceto dos Reis Gonçalves Viana estabeleceu a seguinte distinção: “coveiro: enterrador; còveiro, cabana.” Fernando J. da Silva, cuja opinião coincide com a deste conhecido ortógrafo português (falecido em 1914), consoante se pode verificar no seu “Dicionário da Língua Portuguesa”, também registou, no entanto, a abertura do primeiro o de coveiro, mas apenas quando esta palavra (usada principalmente no Alentejo) se referisse a uma cabana de pastores, junto à malhada, onde se recolhem os cabritos, enquanto as respectivas progenitoras são ordenhadas. Os colaboradores do “Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea” também nele registaram a pronúncia de cuveiro para designar o enterrador de mortos; não acrescentaram, porém, qualquer informação relativa a còveiro (choupana), cuja existência, por se considerar bastante rara, talvez pensassem não merecer qualquer registo.
CRÉDITO BARATO – Assim como não devemos dizer preço barato, em lugar de módico ou baixo, porque se trata de uma impropriedade habitual de expressão, assim também não será legítimo usarmos o mesmo adjectivo para qualificar o substantivo crédito, pois as mercadorias é que se podem considerar caras ou baratas. Diga-se, portanto e unicamente: crédito alto ou baixo (e até acessível), jamais crédito caro ou barato, conforme é já habitual ouvir-se na televisão e na rádio.
CRETA – O nome desta ilha, situada ao sul da Grécia, deriva do latim Creta, com e aberto, como o do substantivo comércio, por isso comete silabada quem o pronuncia como rima de greta, preta ou anacoreta. Aliás, se nos quisermos dar ao trabalho de consultar a página 218 do “Dicionário de Rimas”, organizado por Costa Lima, lá encontraremos o topónimo, quase no fim da coluna central, incluído entre inúmeras palavras de rima em –éta, como bisneta ou profeta. Em face do exposto, deve dizer-se, pois, sem qualquer sombra de hesitação, Créta, e não Crêta, como fazem alguns locutores da Televisão, com manifesto desrespeito da prosódia tradicional.
CRISÂNTEMO – Proveniente do grego chrysanthemos, flor doirada, por intermédio do latim, a pronúncia deste nome botânico terá de ser sempre esdrúxula, conforme determina o seu étimo. Quem profere crisantêmo, em lugar de crisântemo, está a imitar inconscientemente o acento francês. CRUDE – Como petróleo bruto é a locução portuguesa, que se usa há longos anos para tradução do anglicismo crude, aliás crude oil (na sua expressão completa), pensamos não valer a pena tentarmos dar carta de alforria a mais este inútil e presunçoso barbarismo, que somente os locutores costumam empregar nas suas canseirosas notícias relativas a naufrágios de petroleiros. Quem quiser consultar o “Dicionário de Inglês-Português”, da autoria do professor Armando de Morais, publicado em 1966, lá encontrará, entre outros significados, o seguinte: “Crude (cru, verde, imperfeito, rude, bruto, sem amadurecer)”, o que vem dar reforço à nossa modesta afirmação. Em face do exposto, é óbvio que também repudiamos a guarida inconcebivelmente dada a este desnecessário barbarismo pelos magnânimos colaboradores do inditoso “Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea”, a qual se está a transformar, com bastante mágoa nossa, num insuportável cacharolete. |