DICIONÁRIO DE BARBARISMOS DA LINGUAGEM CORRENTE
DECRETO-LEI – O plural deste substantivo composto (espúrio, como lhe chamou, e muito bem, Vasco Botelho de Amaral) faz-se por adjunção de um s a cada um dos dois elementos da composição. Diga-se, pois, correctamente: decretos-leis, e não decreto-leis, plural arrevesado, bastante frequente, que se desviou das normas tradicionais.
DEFLAÇÃO – O falecido professor Rebelo Gonçalves, com o qual aprendemos inestimáveis regras de bem falar a nossa língua, afirmou ser inexacto dizer-se deflàção. E nós concordamos, sem quaisquer restrições, com a sua abalizada opinião. Tal neologismo, provavelmente inspirado, por via francesa, no inglês deflation, está a usar-se, com bastante insistência, como antónimo de inflação, para designar o acto de se reduzir a superabundância de papel-moeda em circulação no mercado. Passemos, portanto, a dizer deflação, com a surdo, como o do substantivo relação, e deixemos, para as pessoas presumidas e mal-falantes, os arrebicados inflàção e deflàção, que nem ao Diabo devem certamente agradar.
DE FORMA A, DE JEITO A, DE MANEIRA A, DE MODO A, DE MOLDE A – Estas expressões, de tipo afrancesado, seguidas de verbo no modo infinito, devem passar assim para português correcto: de forma que, de jeito que, de maneira que, de modo que, de molde que, sempre acompanhadas de tempo conjuntivo. Frase de exemplificação: “Quando entrares no cinema, depois das luzes apagadas, senta-te vagarosamente, de maneira que não dêem pela tua chegada tardia.” Escrever-se, por exemplo, do seguinte modo, embora seja habitual, é que se considera erro crasso: “Quando entrares no cinema, depois das luzes apagadas, senta-te vagarosamente, de maneira a não darem pela tua chegada tardia!”
DEMAIS – Constituída pela preposição de e o advérbio de quantidade mais, a palavra registada em epígrafe, quando significa além disso, os outros, os restantes, nunca se deve escrever de mais, com os dois elementos separados. Esta última opção apenas se poderá efectuar, desde que seja contraposta à locução de menos. Para melhor esclarecimento do assunto seguem algumas frases exemplificativas: “Nunca me convides para assistir a conferências. Demais, já sabes o que penso a respeito delas: só servem para me provocar sonolência”, “Estarei amanhã com os demais candidatos ao concurso para professores de Português”, “Saí de casa com dinheiro de mais para as compras que pretendia fazer.” |